Crônicas

Bandeira branca

Chega um momento na vida em que é melhor hastear a bandeira branca e desistir de certas lutas. Insistir em batalhas perdidas só serve para agigantar o inimigo que vive dentro de nós.

É tempo de revisitar as bases que um dia abandonamos por medo ou fraqueza — e reconhecer que, mesmo tendo hoje mais forças, tentar retomá-las só nos faria ver que talvez nunca tenham sido, de fato, nossas.

É preciso aceitar as baixas no exército de projeções otimistas e evitar justificá-las com o imensurável ou o imprevisível. Fazer isso seria apenas colocar novas imprudências na linha de frente.

Não adianta escavar valas profundas onde deixamos projetos de vida natimortos, à procura de uma cura milagrosa. Estaríamos apenas tentando prolongar a sobrevida de ideias que talvez só façam sentido em outro tempo, em outro corpo.

Abrir as campas dos amores decompostos? Pura ilusão. Mesmo que ali estivessem intactos, seriam apenas mortalhas ocas, refletindo — como espelhos — o amor que um dia foi.

Batalhas perdidas. Depois de muitas vidas vividas, chega uma hora em que é preciso fazer as pazes com elas. Para seguir mais leve, com mais espaço dentro da alma.

Para mim, essa hora chegou. Bandeira branca hasteada.

Ana Helena Reis

Ana Helena Reis é paulistana, pesquisadora e empresária, com extensa produção de textos acadêmicos. Em 2019 começou a se dedicar à escrita literária e à ilustração de seus textos em prosa: contos, crônicas e resenhas, relacionados a fatos e situações do cotidiano. Publica em seu blog, Pincel de Crônicas, em coletâneas, e revistas eletrônicas. Em 2024 lançou seu primeiro livro solo, Conto ou não conto, pela editora Paraquedas/Claraboia, e, em Espanhol, Inquietudes Crónicas, pela editora Caravana/Caburé.

Um comentário

  1. Que linda essa crônica, Ana Helena Reis!
    A começar pelo título, que despertou meu interesse…. Onde seria hasteada a bandeira branca…. Ou o porquê…..
    Então vem a ilustração, singela e ao mesmo tempo, carregada de força e luz! Outra arte que domina com graça e habilidade!
    Li sofregamente a crônica e me identifiquei em quase todos os momentos descritos para chegar até a rendição e hastear a bandeira branca.
    Obrigada de coração, porque entendi a razão em que chega o dia para cada um de nós hastearmos a bandeira branca!
    Você tem a sensibilidade para nos levar a refletir através da simplicidade!
    Parabéns!

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